quinta-feira, 2 de outubro de 2008

The Balllad of Jack & Rose



sinopse: Jack (Daniel Day-Lewis) vive numa ilha deserta com sua filha de dezesseis anos Rose (Camilla Belle). Ele a protegeu das influências exteriores do mundo desde pequena, mas agora a jovem o bombardeia de perguntas sobre o seu futuro. Quando Jack traz uma amante, Kathleen (Catherine Keener) e seus dois filhos, Rodney (Ryan McDonald) e Thaddius (Paul Dano), para morar com eles, a garota passa por experiências que a fazem descobrir um lado obscuro de sua personalidade, fazendo com que a situação beire ao caos.


Dizem sempre (ou quase sempre) que o cinema estadunidense não preza pela arte cinematográfica. Eu discordo. E como argumento em prol dessa opinião usarei o filme “The Balllad of Jack & Rose”.

O filme se passa na segunda metade da década de 80 e tem como cenário uma bucólica e quase extinta comunidade alternativa. Digo quase extinta pois mantém-na em atividade apenas um de seus fundadores (Jack) e sua filha adolescente (Rose).

A proposta principal da diretora seria (segundo a mesma revelou em algumas entrevistas) de retratar em que culminaram as comunidades alternativas que surgiram no final da dec. de 60 e início da dec. de 70. No entanto, penso eu que acaba por abordar diversas temáticas no decorrer da trama, deixando o tema principal como um mero pano de fundo. Uma das mais explícitas seria a relação edípica entre Pai e filha , tendo até uma cena (com um misto de fantasia) em que ambos se beijam, concretizando o afeto incestuoso. Dentro da história do filme, é abordado também o desabrochar da adolescente Rose em uma mulher de desejos. Nesse processo, a púbere apresenta comportamentos típicos de uma adolescente, mas de forma muito mais visceral, provavelmente devido ao ambiente em que esta está inserida. Sem uma representação feminina, ou uma sociedade restritiva (já que possui contato com poucas pessoas), a garota demonstra sempre seus desejos de forma pulsional. Na trama, esse fato é representado por metáforas que comparam a menina aos animais, que se comportam de forma instintiva, sem barreiras morais que nos são necessárias. Por exemplo, a cena em que Rose perde a virgindade. Uma cobra que está embaixo da cama, foge da caixa em que foi aprisionada. Em outra cena, a diretora também recorre à metáfora para representar o fim da fase infantil e inicio do que podemos chamar de adultescencia. Nessa, aparece a casa-da-árvore de Rose totalmente destruída pela ação do tempo, o que pode ser visto como a própria infância da menina que é destruída pela ação do tempo. Nesta mesma cena pode-se ver outro fato curioso. Jack profere a frase “Não se preocupe filha, ainda podemos reconstruí-la” demonstrando não querer que sua filha se torne uma mulher.

As outras personagens da história (a amante de Jack e os filhos da mesma) exercem um papel de extrema importância, pois são a relação mais intima com o mundo extra comuna que Jack & Rose possuem. Mas possuem suas peculiaridades também... Mas por pura preguiça irei omiti-las aqui. Enfim, o filme me cativou por ter uma história maravilhosamente contada sobre o afeto entre um pai e uma filha, com o pano de fundo um ambiente que inspira relações mais vivas. A escolha do cenário foi extremamente acertada (apesar de não fazer idéia de onde seja) e uma fotografia simples, mas não menos bela. Vale a pena ver e guardar. Deguste-a com vontade!

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Stranger Than Fiction – EUA (2006)



Sinopse: Harold Crick (Will Ferrel) acorda todos os dias da mesma forma, sempre com o mesmo ritual, como se sua vida fosse programada previamente. Paralelamente a escritora Karen Eiffel está em profundo bloqueio literário. O inusitado acontece quando Harold passa a escutar uma voz de Karen narrando todas suas ações, como que contasse a sua história diária e, essa mesma voz, diz que ele irá morrer. Harold e Karen passam então ambos a correr atrás do desfecho perfeito para essa história. E qualquer semelhança com a vida não será mera coincidência! (Dir: Marc Forster).

Ok, estamos cansados de ver histórias que se baseiam no bom e velho enredo do quotidiano. Principalmente se a personagem é o típico “Caxias”, que acorda todos os dias sempre no mesmo horário, faz de todos os dias uma cópia do anterior e assim por diante. Com isso, Stranger Than Fiction teria tudo para ser mais um filme estadunidense, com tentativa de ser “cult” e culmina numa história fraca e sem sentido. Mas como a própria história, o filme se mostra surpreendente. A linguagem da narrativa começa quase toda permeada por uma metalinguagem irreverente, onde ao fundo tem-se a voz da narradora e ao mesmo tempo a personagem ouvindo a voz da mesma. Dessa forma o filme já começa te prendendo na tela. Bom, dentre vários eventos e percalços, há uma cena culminante, onde a escritora é defrontada por sua personagem, e em carne e osso, o que se torna um dos pontos chaves da história, onde o enredo principal se fecha. Há também uma brincadeira com os estilos literários da comédia e da tragédia, sendo hora um e hora outro. E em alguns momentos sendo ambos.
Outro detalhe cativante são as próprias personagens, que fazem um show à parte, com os devidos méritos do “casting” maravilhoso que conta com Dustin Hoffman, Emma Thompson e a presença (inusitada na minha opinião) de Queen Latifah.
O personagem principal do filme (que é também a personagem do livro que a personagem Karen escreve) é a priori mais um personagem clichê das repartições públicas, e tem sua vida controlada por seu relógio, que na trama ganha vida própria, tomando ações que alteram os caminhos do seu portador. Mas essa relação entre Harold e seu relógio foi construída de forma tão perfeita que torna poético até aqueles comportamentos neuróticos como o de girar três vezes a colher dentro da chávena antes de beber. E ainda pra piorar o clichê, durante a trama a personagem principal passa por uma mudança drástica na sua vida, começando pela quebra de sua rotina habitual e até o bom e velho encontro com uma paixão arrasadora. E mais uma vez o filme é salvo pela narrativa, pois dentro dessa história tem ainda como pano de fundo ativo o fato da vida de Harold ser controlada pelos rumos que a escritora dá. E é dessa relação entre a personagem e sua criadora que surge outra ótima temática (também metalingüística) interessantíssima, pois torna-se carnal e real a relação entre criatura e criador.
A personagem Karen Eiffel, interpretada por Emma Thonpson, quase rouba o papel de protagonista da história, sendo uma cômica escritora trágica que tem um bloqueio literário durante a produção do livro que conta a história de Harold. Com trejeitos tipicamente de artistas em crise, Emma faz de Karen uma caricatura sobre escritores, baseado no imaginário popular. Um desses trejeitos, que na minha opinião é o melhor de todos, é o de apagar cigarros em um lenço umedecido por uma boa “cusparada prévia”, ato esse que dá um ar ao mesmo tempo depressivo e cômico à personagem.
Enfim, por um excesso de riqueza de detalhes, uma narrativa extremamente bem construída (méritos de Zach Helm) e atuações digna de premiações, recomendo esse filme para todos os amantes de filmes e literatura e vida (por que não?!).

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Across The Universe – EUA/Inglaterra (2007)



Sinopse: Jude (Jim Sturgess) é um pobre jovem inglês que almeja uma carreira como artista plástico e, para alcançar seus objetivos, abandona sua vida em Liverpool rumo aos EUA com muitos sonhos no bolso. Ao chegar nos Estados Unidos, Jude conhece Lucy (Evan Rachel Wood), por quem se apaixona e ambos vivem uma história de amor musical durante os anos conturbados da guerra do Vietnam. Across The Universe é um filme para os amantes de musicais, musicas, e principalmente, Beatles! (Dir: Julie Taymor)

É um balé de imagens e sons que desfraldam sobre a tela. Por essa acredito que nem os "Fab. Fours" esperavam. Imaginem a união da poesia e da musicalidade do quarteto de Liverpool expressa em um filme. Across the Universe conseguiu em um único filme mostrar toda a trajetória da banda que mudou a forma como o mundo ouvia a música, mostrando todas suas fases sem ao menos citar o nome de um dos integrantes. O filme começa assim como eles começaram, com roupas engomadas e cenários simples, no melhor estilo "Os reis do Ye Ye Ye". Passando por sua fase mais psicodélica e cheia de cores e terminando com um apelo de paz mundial. Essas três fases são o pano de fundo da história de amor entre Lucy e Jude (por sinal, Jude é de uma semelhança incrível ao Paul MacCartney).

O filme tem todas as qualidades que exige um bom musical. Contou com arranjadores que fizeram com que os sucessos dos Beatles ficassem com uma roupagem digna de um clássico musical, fazendo com que músicas que já eram boas, ficassem como novas. As coreografias foram um show a parte que, junto com a cenografia e figurino, fizeram com que toda a musicalidade do filme (e dos Beatles é claro) ganhasse forma física e cores. A fotografia se torna uma estrela a parte, já que é ela que foi capaz de explicitar cada uma das fases da banda. E além de toda essas qualidades visuais, conseguiu fazer um registro de um momento conturbado da história mundial, mostrando indiretamente ícones da época (como Jimmi Hendrix e Janis Jopplin) ou fazendo alusões mais diretas (como a aparição de cenas do Martin Luther King e Mao Tse Tung). Fez também uma alusão muito interessante sobre os manifestantes a favor da paz que em muitos momentos contradiziam seus ideais defendendo a força uma idéia de paz.

Realmente Across the Universe conseguiu, em um musical, demonstrar toda a completude de sentidos das musicas dos Beatles e de quebra dar uma nova roupagem para clássicos como black bird, Let be (que por sinal é cantada numa das cenas mais tocantes do filme) e Just little help from my friends. Uma vez uma amiga minha disse "não há nada que pensem fazer em termos de música que os Beatles ou seus integrantes já não tenham feito", e hoje eu digo que esse filme com certeza chegou próximo disso.

Melissa P. – Itália/Espanha (2005)



Sinopse: Os desejos e delírios de uma adolescente é magnificamente retratado nesse triller dramático. Melissa aos dezesseis anos, assim como várias de sua idade, tem paixões e desejos por os garotos a as circundam. Porém sua iniciação sexual não se dá da forma como ela esperava. Após a frustrada primeira relação sexual, Melissa passa a desejar e usar os homens da mesma forma como foi usada, matando aos poucos a menina que ainda reside em sua alma. (Dir: Luca Guadagnino)

De fato me cativa a forma crua e ao mesmo tempo absurda que o cinema europeu costuma nos proporcionar. Mais uma vez fico maravilhado com uma produção do velho mundo em um filme “simples”, sem muito efeito, trabalhando apenas em uma boa história, uma ótima fotografia e atuações respeitáveis! Assim me sinto depois de assistir “100 Escovadas antes de ir para a cama” (título do livro que inspirou o filme e como ficou chamado o filme aqui no Brasil).

A pequena Melissa faz lembrar como eram traduzidos para nossas mentes infantil e ainda virgem, todos os desejos sexuais que mantínhamos, até então, aprisionados. Como eram muitas vezes romanceados ou direcionados para um determinado objeto de desejo. Mas após o ato realizado, vemos como sexo tem seu lado animal, carnal, impulsivo. E passamos a amar e fazer sexo, muitas vezes de forma doentia. No filme, as cenas de sexo desempenha pela jovem atriz Maria Valverde é feita de forma magistral, realmente exteriorizando toda a libido sexual da adolescência.

A história é contada com o simples começo, meio e fim. Com reviravoltas nos momentos previsíveis, nada muito elaborado. Mas mesmo assim tem um enredo forte, capaz de nos prender à história. Parte graças também a relação afetuosa entre a protagonista e sua avó, que durante muito tempo reside na mesma casa que ela. As duas possuem uma relação muito mais próxima do que entre Melissa e sua mãe, que se porta sempre de forma impecável e indefectível, ou mesmo com seu pai, que é apenas um ídolo distante que só representa uma ilusão de um grande pai, já que o mesmo não está presente fisicamente em momento algum do filme.

A avó vê em sua neta um espelho dela mesma quando possuía sua idade, tendo assim mais tato para lidar com a púbere. Uma das cenas de destaque do filme é justamente uma demonstração de afeto entre avó em neta, onde a avó penteia o cabelo de sua neta, contando até 100 escovadas. Esse ato ganha uma propriedade poética maior quando a avó revela a origem do ritual de passar a escova no cabelo por cem vezes, que é justamente fazer com que seus cabelos fiquem lisos para dizer que ela continuará sendo a mesma pessoa, mesmo que os outros a use de formas indevidas.

Essa relação hereditária realmente dá um colorido maior a história, ganhando disparado de todas as outras relações que Melissa tenha. Falando em colorido, a fotografia do filme é impecável! A todo momento são usado cores quentes e vivas, como a alma desejante da protagonista. Excetua-se as cenas de sexo ou as cenas na casa da própria Melissa, já que seu apartamento reflete o comportamento seco de sua mãe (talvez pelo mesmo motivo seja exploradas as cores frias nos ambientes onde ocorrem as cenas de sexo).

Melissa P. nos transporta novamente para esse período conturbado e perigoso de nossa vida, mas nem por isso deixa de ser uma fase de pequenos e grandes prazeres. Todos os sentimentos são extremos, tudo é muito sensível, como se tivéssemos acabado de sair da proteção uterina. É isso, assistam, assistam e assistam...

segunda-feira, 5 de maio de 2008

Idiocracy – EUA (2005)


Sinopse: O soldado Joe Bauer (Luke Wilson) foi congelado como cobaia em uma experiência do exército no ano de 2005, porém, devido a fatos inesperados, foi despertado no ano de 2505. Totalmente perdido, Joe percebe que todos os seres humanos ficaram extremamente burros, já que não houve mais seleção natural entre inteligentes e não inteligentes, e como os inteligentes não se reproduziram como devia.... Vuo a lá! Joe se torna o homem mais inteligente do mundo! O que pode acontecer quando a esperança da humanidade está nas mãos de um homem, digamos, não muito experto?(Dir.:Mike Judge).

AUHAUHAUHUAUAH! Enganaram o bobo, na casca do ovo! Quando eu li a resenha na locadora (diga-se de passagem, era uma sinopse infinitamente melhor do que a bosta que eu escrevi) me pareceu ser uma comédia com um enredo maravilhoso! Que poderiam ser abordados vários questionamentos filosóficos sobre um pensar sobre o homem e qual o seu futuro tendo em vista a sociedade moderna. Cai que nem um patinho! O filme não passou de um grande pastelão de péssima qualidade! Puta merda, vou te contar...

Não há nenhuma sátira realmente interessante á nossa hipotética sociedade posterior. Brinca-se muito com a incapacidade de pensar, nossa extrema preguiça tendo como exemplo de tal preguiça, uma poltrona que é privada e serve para contemplar a televisão que exibe um programa que não foge muito da nossa velha conhecida “vídeo-cassetadas”. Não precisamos ir para o futuro para falar que nós seres humanos, dotados de uma inteligência considerável, perdemos horas da nossa vida olhando uma porcaria de um eletrodoméstico luminoso que exibe imagens de outros seres humanos em situações acidentais, em que na maioria das vezes causam dor ou vergonha ao acidentado.

Também achei ridículo o fato do imbecil mais inteligente salvar o mundo apenas lembrando que é necessário regar plantas com água e não com bebidas salinizadas como “Gatorade®”. Nós no futuro (segundo o filme), acreditaremos tanto que essas bebidas sejam a mais completa fonte de saúde, ao ponto de hidratarmos até as plantas com tal líquido. Não que isso não seja totalmente sem-graça, mas esse acaba sendo um dos fatos de maior relevância durante toda a trama. Após ver o filme cheguei a conclusão que a melhor coisa que o Mike Judge fez da vida foi o crássico Beavis and Butt-Head.

Enfim, eu esperava um humor mais inteligente, como é possível ver em outros filmes estadunidense como por exemplo “Evolution”, que até segue mais ou menos a mesma idéia. O filme deixou a desejar nos diálogos, nas piadas, no figurino... em tudo! E pronto, achei uma merda mesmo, não recomendo pra ninguém, não perca tempo, pois a única coisa interessante do filme é o próprio nome (e a sinopse da caixa do DVD na versão brasileira).

L'auberge Espagnole - França/Espanha (2002)


Sinopse: Na atual União Européia existe um programa de intercâmbio cultural e acadêmico chamado "Erasmus" e é nesse contexto em que se desenrola a trama de L'auberge Espagnole. A história é contada sobre a ótica e narração de Xavier, Um francês que por necessidades profissionais se candidata a participar do projeto Erasmus, indo para a Espanha, onde acaba morando com mais seis pessoas, sendo que cada uma dessas pertence a nacionalidades distintas, formando assim uma estranha e peculiar torre de babel. Altamente recomendado para os ex-universitários nostálgicos de plantão!

Eu sei que eu sou um dos últimos a assistir esse filme, que ele não é novidade nenhuma para muitos, mas tudo bem.

Bom o meu relato sobre esse filme não terá filtro algum de imparcialidade. Ele será mais um relato visceral do que propriamente um comentário ou mesmo uma crítica do filme.

Ah...Como me senti em casa ao ver esse filme. De repente todas as experiências que tive em quatro anos me foram expressas em apenas duas horas. Albergue espanhol consegue mostrar com uma boa parcela de realidade como é a vida de alguém que sai da sua casa para estudar fora.Tudo bem que o choque cultural que o protagonista sofre não se compara com minha experiência. Eu não saí do país, mas troquei de estado. Mas como moro num país de dimensões continentais, posso dizer que quase percorri a mesma distância que ele. Fui parar em Londrina. Já morei em vários lugares, mas nenhum desses lugares me proporcionou o que Londrina foi capaz de me dar. Acredito que nunca havia sido tão próximo de mim em toda a vida. Acredito que por essa experiência em particular eu tenha me identificado tão profundamente nesse filme. Sou como Xavier, que somente quando teve a experiência de morar com outras pessoas, que não fossem parentes, que pode enfim transparecer tudo aquilo o que realmente se é. Independente de seus defeitos e trejeitos. Uma cena que talvez para outros olhos seja apenas um apelo dramático foi um perfeito retrato do que sinto hoje. A cena em questão é uma das últimas, onde Xavier passeia pelas ruas de Paris e encontra um grupo de estudantes do "Erasmus" e ao vê-los forma-se em sua fronte uma expressão de profunda nostalgia de um período tão efêmero, mas que foi capaz de talhar marcas eternas em sua vida. Fica aqui um pequeno desabafo de alguém que também sente dessa forma e também sabe que por mais que sonhe e queira, essa época não retornará. Obrigado a todos com quem tive os prazeres e desprazeres de conhecer durante minha estadia em Londrina. Daqui algum tempo eu postarei a continuação desse filme, que se chama “Les Poupées russe”, e que por sinal assisti há um ano atrás em Londrina, mas devido ao impacto que L'auberge Espagnole causou em mim, torna-se necessário comentar o desfecho desse filme e também o de minha vida, mas isso ao futuro pertence. Au revoir...

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Frida – EUA (2002)



Breve sinopse: Frida é uma mulher de comportamentos além de sua época. Sempre desinibida e certa de suas vontades. Quando esta decide pintar quadros para poder ajudar na renda familiar, pede a opinião Diego Riviera, um grande pintor mexicano conhecido por sua arte de pintar e de desfrutar mulheres. E desse encontro nasce um amor no mínimo conturbado. Baseado na história real da inigualável pintora Frida Kahlo, o filme retrata, de forma poética, os principais períodos da vida da pintora que inspiraram seus principais quadros auto-retratos.

Bom, a priori o filme não teria nada de especial, afinal de contas, filmes baseados na vida de alguém famoso se vêem a todo momento. Mas esse filme não foi apenas uma homenagem a uma grande pintora. Durante o filme, foi pintada a história de uma heroína magnífica, que possuía um ardor gigantesco pela vida, desde os pequenos desprazeres aos grandes prazeres, fazendo tudo de forma intensa. Intensa como as cores de seus quadros.

O filme ficou bem conhecido, com as brilhantes interpretações de Salma Hayek e Alfred Molina nos papéis principais do filme. Num tenho muito a falar do filme. Não por falta de conteúdo, mas justamente por excesso deles fica quase impossível descrevê-los aqui, pois seria necessária a descrição de cada cena, cada momento. A direção de Julie Taymor mostrou-se de uma perfeição de detalhes e com uma fotografia maravilhosa, digna dos quadros da protagonista. Deve-se ter uma atenção especial para as cenas onde se unem uma cena real com as cenas pintadas por Frida, o figurino e a atriz estão impecavelmente similares com os quadros, o que permite uma experiência extraordinária, como se fosse possível entrar nos quadros de Kahlo. Também vale a pena lembrar a maravilhosa cena em que Frida dança tango com uma amiga de Riviera. Frida (no caso Salma) passa de cavalheiro à dama com uma facilidade absurda, sem em momento algum deixar de se portar de forma extremamente sensual. Definitivamente é um deleite para os olhos e mente, é a construção de uma heroína mexicana com uma alma que não cabia no mundo. Enfim, não vou ficar aqui enrolando, assista ao filme e pronto! Vale a pena rever sempre que puder também.

Art School Confidential – EUA, 2006.



Sinopse: Jerome (Max Minghella) é um aspirante a pintor, típico solitário excluído no ambiente escolar. Ele chega à faculdade de artes aspirando ser uns dos mais representativos pintores do séc. XXI. Encontra em seu curso, toda a gama de arquétipos de artistas, incluindo seu amigo Bardo (Joel David Moore) que procura sempre definir o papel de cada aluno na sala de aula. Jerome se apaixona por Audrey (Sophia Myles), uma modelo que posa para as aulas de arte, que acaba sendo sua musa inspiradora e sua paixão platônica. Passa então a tentar se aproximar de qualquer forma dela. Porém ela acaba se interessando mais pelo principal rival de Jerome, Jonah (Matt Keeslar). Nisso começa uma espécie de corrida entre Jerome e Jonah para conquistar a atenção do publico de arte e da atenção de Audrey. Como pano de fundo, tem-se uma série de assassinatos nas proximidades do campus da universidade. Dir.: Terry Zwigoff.

Antes de falar do filme, gostaria de fazer um comentário a cerca da tradução do título para o português tupiniquim, que ficou uma bosta! Em nossa terra o filme foi apresentado como “Uma Escola de Arte Muito Louca” Porra! Tudo bem que o filme é meio clichezinho... Mas esse nome???? Desnecessário. Parece aqueles filmes que surgiram aos montes no final de 80 e início de 90, como por exemplo, “Loucademia de Polícia” ou “Uma Escola do Barulho”.
O filme tem seus louros, porém começa parecendo ser mais um filminho americano onde o “Loser” se apaixona pela “mais gostosinha da sala de aula” no qual no final sempre consegue conquistá-la e passar alguma lição de vida. Bem, realmente não foge muito disso. Usa como ambiente uma universidade de artes o que não é muito recorrente para esse tipo de filme. Mas a retrata como sendo um grande “depósito de losers”, que provavelmente é a forma como grande parte dos “teenagers” das “High School’s” da vida tem sobre tal ambiente.
(Quem ainda tem interesse em ver esse filme, favor parar de ler aqui).
O que me chamou a atenção nesse filme são as personagens “Bardo” e um velho artista (Jimmy) que é apresentado ao Jerome pelo próprio “Bardo”. “Bardo” chama a atenção pela pouca “forçassão de barra”. Ele não tenta ser o grande intelectual, não demonstra inveja aos proeminentes artistas ao seu redor, enfim, é um personagem simples que dá um tempero à trama. Em sua primeira aparição, Bardo começa a definir os estereótipos dos calouros, incluindo o seu próprio, se definindo como o grande clichê de aluno que vive trocando de curso por temer ser um fracasso em tudo (confesso que é nesse ponto que ele me cativa, justamente por ser essa uma das minhas faces). Já Jimmy impressiona por mostrar a faceta mais deprimente dos artistas. Obviamente é clichê colocar velhos depressivos e frustrados como artistas que passam a ser uma espécie de mestre do protagonista, porém essa personagem ganha por ser escraxado ao extremo e também o estrangulador que todos procuram. Inclusive o principal rival de Jerome é na verdade um policial infiltrado que investiga a série de assassinatos que ocorre no campus. Pois bem... Essa é a única parte boa do filme, onde a trama toma um rumo um pouco diferente. O protagonista usa alguns quadros do velho assassino para tentar impressionar a todos em um vernissage inclusive a mocinha. Porém estão colados nos quadros, como se fossem adornos, os pertences das vítimas do estrangulador fato que leva a polícia a incriminar Jerome como culpado pelos crimes. Como o verdadeiro assassino morre num incêndio, e o próprio Jerome não relata que os quadros não são de sua autoria, acaba sendo preso. E de dentro da prisão passa a produzir novos quadros. Após todos esses eventos, sua arte passa a ser apreciada por todos. Bom, ai realmente se forma o grande clichê, pois o protagonista alcança seu objetivo de ser um expoente das artes plásticas, de quebra conquista sua amada mesmo estando na cadeia ainda fica como lição de moral para os losers do mundo! “Nunca se esqueçam meus filhos, aquele que é incompreendido hoje, será o herói de amanhã”. (Pequena pausa para o gorfo). Porém fica válida apenas a crítica à atenção que é dada a determinada produção artística não pela obra, e sim pela história do artista, por tanto, a parte que contempla o filme, em minha opinião é claro.
Como produção cinematográfica, não foi explorados muitos recursos. Cenários simples, que apenas retrata o ambiente onde se desenvolve a história, mas os quadros ganham um bom espaço, com algumas obras que realmente chamam a atenção. Pelo que percebi nos créditos, parte delas são de alunos de artes e tem até obras de alunos com necessidades especiais. As interpretações que não passam do comum do cinema americano, incluindo a personagem interpretada por John Malckovich, que não costuma manter seus personagens no padrão hollywoodiano. O jovem Jerome tem seus talentos, mas num faz muito ao ponto de impressionar. Devo comentar também que o filme é baseado em um comic novel de mesmo nome, porém não tive a oportunidade de ler tal obra. Enfim... Sem mais delongas, o filme vale a pena ver como um passatempo para dias de chuva, mas nada mais do que isso.

Obs.: O presente comentário sobre esse filme foi feito após a primeira vez que vi o filme. Confesso que em uma segunda oportunidade minha opinião mudou substancialmente. Ainda acredito que o filme tem um desfile de clichês, mas acredito que foi bem exposto, como se estivesse justamente explorando uma linguagem iconográfica do “cinema pop”, algo parecido com que Kevin Smith (Dogma, Clerks, Mallrats, etc.) faz. As personagens de apoio que aparecem do decorrer do filme também são bem singulares, exemplificando, de uma forma caricatura, pessoas singulares que cruzamos no dia-a-dia. E a personagem de John Malkovich também ganhou meu apresso como sendo uma boa sátira dos artistas que são o cúmulo do “cult” e ao mesmo tempo um extremo fracasso, o que justifica a impressão que tive de sua performance na primeira vez que vi o filme.