quarta-feira, 4 de junho de 2008

Across The Universe – EUA/Inglaterra (2007)



Sinopse: Jude (Jim Sturgess) é um pobre jovem inglês que almeja uma carreira como artista plástico e, para alcançar seus objetivos, abandona sua vida em Liverpool rumo aos EUA com muitos sonhos no bolso. Ao chegar nos Estados Unidos, Jude conhece Lucy (Evan Rachel Wood), por quem se apaixona e ambos vivem uma história de amor musical durante os anos conturbados da guerra do Vietnam. Across The Universe é um filme para os amantes de musicais, musicas, e principalmente, Beatles! (Dir: Julie Taymor)

É um balé de imagens e sons que desfraldam sobre a tela. Por essa acredito que nem os "Fab. Fours" esperavam. Imaginem a união da poesia e da musicalidade do quarteto de Liverpool expressa em um filme. Across the Universe conseguiu em um único filme mostrar toda a trajetória da banda que mudou a forma como o mundo ouvia a música, mostrando todas suas fases sem ao menos citar o nome de um dos integrantes. O filme começa assim como eles começaram, com roupas engomadas e cenários simples, no melhor estilo "Os reis do Ye Ye Ye". Passando por sua fase mais psicodélica e cheia de cores e terminando com um apelo de paz mundial. Essas três fases são o pano de fundo da história de amor entre Lucy e Jude (por sinal, Jude é de uma semelhança incrível ao Paul MacCartney).

O filme tem todas as qualidades que exige um bom musical. Contou com arranjadores que fizeram com que os sucessos dos Beatles ficassem com uma roupagem digna de um clássico musical, fazendo com que músicas que já eram boas, ficassem como novas. As coreografias foram um show a parte que, junto com a cenografia e figurino, fizeram com que toda a musicalidade do filme (e dos Beatles é claro) ganhasse forma física e cores. A fotografia se torna uma estrela a parte, já que é ela que foi capaz de explicitar cada uma das fases da banda. E além de toda essas qualidades visuais, conseguiu fazer um registro de um momento conturbado da história mundial, mostrando indiretamente ícones da época (como Jimmi Hendrix e Janis Jopplin) ou fazendo alusões mais diretas (como a aparição de cenas do Martin Luther King e Mao Tse Tung). Fez também uma alusão muito interessante sobre os manifestantes a favor da paz que em muitos momentos contradiziam seus ideais defendendo a força uma idéia de paz.

Realmente Across the Universe conseguiu, em um musical, demonstrar toda a completude de sentidos das musicas dos Beatles e de quebra dar uma nova roupagem para clássicos como black bird, Let be (que por sinal é cantada numa das cenas mais tocantes do filme) e Just little help from my friends. Uma vez uma amiga minha disse "não há nada que pensem fazer em termos de música que os Beatles ou seus integrantes já não tenham feito", e hoje eu digo que esse filme com certeza chegou próximo disso.

Melissa P. – Itália/Espanha (2005)



Sinopse: Os desejos e delírios de uma adolescente é magnificamente retratado nesse triller dramático. Melissa aos dezesseis anos, assim como várias de sua idade, tem paixões e desejos por os garotos a as circundam. Porém sua iniciação sexual não se dá da forma como ela esperava. Após a frustrada primeira relação sexual, Melissa passa a desejar e usar os homens da mesma forma como foi usada, matando aos poucos a menina que ainda reside em sua alma. (Dir: Luca Guadagnino)

De fato me cativa a forma crua e ao mesmo tempo absurda que o cinema europeu costuma nos proporcionar. Mais uma vez fico maravilhado com uma produção do velho mundo em um filme “simples”, sem muito efeito, trabalhando apenas em uma boa história, uma ótima fotografia e atuações respeitáveis! Assim me sinto depois de assistir “100 Escovadas antes de ir para a cama” (título do livro que inspirou o filme e como ficou chamado o filme aqui no Brasil).

A pequena Melissa faz lembrar como eram traduzidos para nossas mentes infantil e ainda virgem, todos os desejos sexuais que mantínhamos, até então, aprisionados. Como eram muitas vezes romanceados ou direcionados para um determinado objeto de desejo. Mas após o ato realizado, vemos como sexo tem seu lado animal, carnal, impulsivo. E passamos a amar e fazer sexo, muitas vezes de forma doentia. No filme, as cenas de sexo desempenha pela jovem atriz Maria Valverde é feita de forma magistral, realmente exteriorizando toda a libido sexual da adolescência.

A história é contada com o simples começo, meio e fim. Com reviravoltas nos momentos previsíveis, nada muito elaborado. Mas mesmo assim tem um enredo forte, capaz de nos prender à história. Parte graças também a relação afetuosa entre a protagonista e sua avó, que durante muito tempo reside na mesma casa que ela. As duas possuem uma relação muito mais próxima do que entre Melissa e sua mãe, que se porta sempre de forma impecável e indefectível, ou mesmo com seu pai, que é apenas um ídolo distante que só representa uma ilusão de um grande pai, já que o mesmo não está presente fisicamente em momento algum do filme.

A avó vê em sua neta um espelho dela mesma quando possuía sua idade, tendo assim mais tato para lidar com a púbere. Uma das cenas de destaque do filme é justamente uma demonstração de afeto entre avó em neta, onde a avó penteia o cabelo de sua neta, contando até 100 escovadas. Esse ato ganha uma propriedade poética maior quando a avó revela a origem do ritual de passar a escova no cabelo por cem vezes, que é justamente fazer com que seus cabelos fiquem lisos para dizer que ela continuará sendo a mesma pessoa, mesmo que os outros a use de formas indevidas.

Essa relação hereditária realmente dá um colorido maior a história, ganhando disparado de todas as outras relações que Melissa tenha. Falando em colorido, a fotografia do filme é impecável! A todo momento são usado cores quentes e vivas, como a alma desejante da protagonista. Excetua-se as cenas de sexo ou as cenas na casa da própria Melissa, já que seu apartamento reflete o comportamento seco de sua mãe (talvez pelo mesmo motivo seja exploradas as cores frias nos ambientes onde ocorrem as cenas de sexo).

Melissa P. nos transporta novamente para esse período conturbado e perigoso de nossa vida, mas nem por isso deixa de ser uma fase de pequenos e grandes prazeres. Todos os sentimentos são extremos, tudo é muito sensível, como se tivéssemos acabado de sair da proteção uterina. É isso, assistam, assistam e assistam...