

Sinopse: Os desejos e delírios de uma adolescente é magnificamente retratado nesse triller dramático. Melissa aos dezesseis anos, assim como várias de sua idade, tem paixões e desejos por os garotos a as circundam. Porém sua iniciação sexual não se dá da forma como ela esperava. Após a frustrada primeira relação sexual, Melissa passa a desejar e usar os homens da mesma forma como foi usada, matando aos poucos a menina que ainda reside em sua alma. (Dir: Luca Guadagnino)
De fato me cativa a forma crua e ao mesmo tempo absurda que o cinema europeu costuma nos proporcionar. Mais uma vez fico maravilhado com uma produção do velho mundo em um filme “simples”, sem muito efeito, trabalhando apenas em uma boa história, uma ótima fotografia e atuações respeitáveis! Assim me sinto depois de assistir “100 Escovadas antes de ir para a cama” (título do livro que inspirou o filme e como ficou chamado o filme aqui no Brasil).
A pequena Melissa faz lembrar como eram traduzidos para nossas mentes infantil e ainda virgem, todos os desejos sexuais que mantínhamos, até então, aprisionados. Como eram muitas vezes romanceados ou direcionados para um determinado objeto de desejo. Mas após o ato realizado, vemos como sexo tem seu lado animal, carnal, impulsivo. E passamos a amar e fazer sexo, muitas vezes de forma doentia. No filme, as cenas de sexo desempenha pela jovem atriz Maria Valverde é feita de forma magistral, realmente exteriorizando toda a libido sexual da adolescência.
A história é contada com o simples começo, meio e fim. Com reviravoltas nos momentos previsíveis, nada muito elaborado. Mas mesmo assim tem um enredo forte, capaz de nos prender à história. Parte graças também a relação afetuosa entre a protagonista e sua avó, que durante muito tempo reside na mesma casa que ela. As duas possuem uma relação muito mais próxima do que entre Melissa e sua mãe, que se porta sempre de forma impecável e indefectível, ou mesmo com seu pai, que é apenas um ídolo distante que só representa uma ilusão de um grande pai, já que o mesmo não está presente fisicamente em momento algum do filme.
A avó vê em sua neta um espelho dela mesma quando possuía sua idade, tendo assim mais tato para lidar com a púbere. Uma das cenas de destaque do filme é justamente uma demonstração de afeto entre avó em neta, onde a avó penteia o cabelo de sua neta, contando até 100 escovadas. Esse ato ganha uma propriedade poética maior quando a avó revela a origem do ritual de passar a escova no cabelo por cem vezes, que é justamente fazer com que seus cabelos fiquem lisos para dizer que ela continuará sendo a mesma pessoa, mesmo que os outros a use de formas indevidas.
Essa relação hereditária realmente dá um colorido maior a história, ganhando disparado de todas as outras relações que Melissa tenha. Falando em colorido, a fotografia do filme é impecável! A todo momento são usado cores quentes e vivas, como a alma desejante da protagonista. Excetua-se as cenas de sexo ou as cenas na casa da própria Melissa, já que seu apartamento reflete o comportamento seco de sua mãe (talvez pelo mesmo motivo seja exploradas as cores frias nos ambientes onde ocorrem as cenas de sexo).
Melissa P. nos transporta novamente para esse período conturbado e perigoso de nossa vida, mas nem por isso deixa de ser uma fase de pequenos e grandes prazeres. Todos os sentimentos são extremos, tudo é muito sensível, como se tivéssemos acabado de sair da proteção uterina. É isso, assistam, assistam e assistam...

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