segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Stranger Than Fiction – EUA (2006)



Sinopse: Harold Crick (Will Ferrel) acorda todos os dias da mesma forma, sempre com o mesmo ritual, como se sua vida fosse programada previamente. Paralelamente a escritora Karen Eiffel está em profundo bloqueio literário. O inusitado acontece quando Harold passa a escutar uma voz de Karen narrando todas suas ações, como que contasse a sua história diária e, essa mesma voz, diz que ele irá morrer. Harold e Karen passam então ambos a correr atrás do desfecho perfeito para essa história. E qualquer semelhança com a vida não será mera coincidência! (Dir: Marc Forster).

Ok, estamos cansados de ver histórias que se baseiam no bom e velho enredo do quotidiano. Principalmente se a personagem é o típico “Caxias”, que acorda todos os dias sempre no mesmo horário, faz de todos os dias uma cópia do anterior e assim por diante. Com isso, Stranger Than Fiction teria tudo para ser mais um filme estadunidense, com tentativa de ser “cult” e culmina numa história fraca e sem sentido. Mas como a própria história, o filme se mostra surpreendente. A linguagem da narrativa começa quase toda permeada por uma metalinguagem irreverente, onde ao fundo tem-se a voz da narradora e ao mesmo tempo a personagem ouvindo a voz da mesma. Dessa forma o filme já começa te prendendo na tela. Bom, dentre vários eventos e percalços, há uma cena culminante, onde a escritora é defrontada por sua personagem, e em carne e osso, o que se torna um dos pontos chaves da história, onde o enredo principal se fecha. Há também uma brincadeira com os estilos literários da comédia e da tragédia, sendo hora um e hora outro. E em alguns momentos sendo ambos.
Outro detalhe cativante são as próprias personagens, que fazem um show à parte, com os devidos méritos do “casting” maravilhoso que conta com Dustin Hoffman, Emma Thompson e a presença (inusitada na minha opinião) de Queen Latifah.
O personagem principal do filme (que é também a personagem do livro que a personagem Karen escreve) é a priori mais um personagem clichê das repartições públicas, e tem sua vida controlada por seu relógio, que na trama ganha vida própria, tomando ações que alteram os caminhos do seu portador. Mas essa relação entre Harold e seu relógio foi construída de forma tão perfeita que torna poético até aqueles comportamentos neuróticos como o de girar três vezes a colher dentro da chávena antes de beber. E ainda pra piorar o clichê, durante a trama a personagem principal passa por uma mudança drástica na sua vida, começando pela quebra de sua rotina habitual e até o bom e velho encontro com uma paixão arrasadora. E mais uma vez o filme é salvo pela narrativa, pois dentro dessa história tem ainda como pano de fundo ativo o fato da vida de Harold ser controlada pelos rumos que a escritora dá. E é dessa relação entre a personagem e sua criadora que surge outra ótima temática (também metalingüística) interessantíssima, pois torna-se carnal e real a relação entre criatura e criador.
A personagem Karen Eiffel, interpretada por Emma Thonpson, quase rouba o papel de protagonista da história, sendo uma cômica escritora trágica que tem um bloqueio literário durante a produção do livro que conta a história de Harold. Com trejeitos tipicamente de artistas em crise, Emma faz de Karen uma caricatura sobre escritores, baseado no imaginário popular. Um desses trejeitos, que na minha opinião é o melhor de todos, é o de apagar cigarros em um lenço umedecido por uma boa “cusparada prévia”, ato esse que dá um ar ao mesmo tempo depressivo e cômico à personagem.
Enfim, por um excesso de riqueza de detalhes, uma narrativa extremamente bem construída (méritos de Zach Helm) e atuações digna de premiações, recomendo esse filme para todos os amantes de filmes e literatura e vida (por que não?!).

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